Falta de civismo




Hoje na corrida matinal habitual, deparei-me com um triste cenário de vandalismo e falta de civismo. Ao longo de cerca de 200metros na ecovia litoral em Cepães, Esposende, junto à praia, encontrei um cenário de destruição das barreiras de proteção do passadiço da ecovia recentemente construída. O ato de malvadez pura, com que alguém conseguiu destruir a construção de madeira maciça só pode ser fruto de fortes distúrbios mentais e de falta de ocupação a que certamente a ausência de discotecas por causa da pandemia terá um forte peso. Frequentemente vemos grupos de jovens que vagueiam pela noite com garrafas na mão "curtindo" as férias. Infelizmente os valores de outrora perdem-se e a nossa juventude não consegue ter a noção de preservar o património que é construído em prol de todos com o dinheiro de todos e cuja manutenção necessária por atos de vandalismo será onerosa para todos. 








Tâmega

Correm calmas estas águas,

Deste Tâmega atraiçoado;

Escondem murmúrios, algumas mágoas,

Deste teu apaixonado.

 

Teus arvoredos pelas margens,

Dão seu toque de beleza;

Seus campos, suas pastagens,

O seu quê de rareza.

 

A água brilha intensamente,

Pelo sol que se refresca,

Será possível haver gente,

Que ingénua, te detesta?

 

Teu mosteiro a S. Gonçalo,

Com sua cúpula artística;

Quem não quer saber amá-lo,

Na complexidade que tem a mística?

 

Ó Tâmega, maltratado és,

Mas deixa lá afinal;

Pois como vês...

O mal é de todos em geral.

 

Escrito em Agosto de 1996 durante umas férias com amigos em Amarante



Mulher Pecado

Mulher Pecado

Pedaço de pecado que me persegue e atormenta,
fujo sem conseguir desviar sequer o olhar
sinto teu cheiro e percorro-te olhando,
lascivo.
Tentação do pecado, demónio na terra.
Vistosa, sensual,
desfilas perante meu olhar vidrado…
Tentas-me,
seduzes-me mesmo sem o saberes.
Percorro tuas curvas iluminadas pelo brilho do sol,
e desejo-te…

Escrito em Agosto 2002


Qui es-tu?

Qui es-tu?

Comment tu t'appelles?

C'est comme peindre une aguarelle,

que j'ai vue.

 

Viens, cours pour moi,

et écoute les vagues de la mer.

Dis que je suis le dérnier,

et que je vais vivre joint à toi.

 

Clos les yeux, et songe

une unique minute, une heure,

que tu peux être heureuse.

 

Dis que tu m'aimes

Écoute mon coeur.

De te pendre je suis peureux.

 

Escrito em 1998 


Escuta-me

Sim, tu que me olhas e ouves, escuta-me… 
Escuta-me mesmo que a minha boca não se abra.
Escuta-me mesmo que minhas cordas vocais
não oscilem…
Presta atenção ao que te digo com o olhar,
com a expressão, com o ritmo da respiração,
com o franzir de testa. 
Enfim, com tudo o que te digo, mudo.
Se me escutares, ouves-me,
mas nem sempre que me ouves escutas.
Vasculha o meu ser, o meu intimo, percorre-o todo
sem medos ou receios, e nele encontrarás o que buscas.
Sente, presente até, mas escuta-me,
nem que seja por um só instante.

Porto, 19 Maio de 2005

À Lareira

Lareira acesa e o calor espalha-se entre nós.
Nossos corações palpitam de amor e desejo e nossas veias
percorrem o corpo como estradas de sangue em fogo.
Os dedos de duas mãos entrelaçam-se ficando outras duas
que percorrem os corpos nus.
Teus lábios percorrem meu corpo e o calor que há em mim
faz parecer gelado o fogo que dança na lareira.
Um arrepio percorre-me a espinha e estremeço.
Sinto-te. Sinto em mim teus lábios, sinto cada beijo 
como se fosse por uma eternidade.
Acaricias meu corpo e percorres cada centímetro
como em busca de algo que teimas em não encontrar.
Ei-lo, sente-o como fonte de calor, desejo e prazer.
Desfruta-o, como vulcão em fogo preparado para a erupção final.
Hum! Como é bom.
Nossos corpos húmidos de suor, tremem de prazer.
Nossos braços entrelaçam-nos um ao outro… e beijo tua testa.
Ambos repousamos as cabeças e sentimos a lenha estalar 
como aplausos de plateia após um “Final Feliz”.

Escrito em 17 Janeiro 2005

Sofrimento

Ardor, prurido,
Comichão sem sentido.
Ferida aberta, invisível
deste corpo sofrido.
Sentimento palpável,
percorrendo a epiderme,
brota pelos poros e escorre,
como lava indesejável.
Rio de fogo, ardente,
que me consome, destrói,
devagar, como quem mói,
lentamente.

Escrito em 31 Maio 2005

Alma


No silêncio e escuridão vive nossa alma sobressaltada.
Alma essa aprisionada dentro de um corpo estranho,
que não é mais que um invólucro baço
que esconde a luz que tenta penetrar por nossos poros,
beijá-la, e dizer-lhe baixinho:
– Estou aqui para te iluminar.
Alma, que te vai lá dentro? Desejo de escapulir,
viver o mundo mais além, por de trás desses poros
que te fazem ver o mundo através de orifícios minúsculos?
Tornares-te tu própria matéria palpável, real,
sentida ao tacto de um outro invólucro?
Solta-te, evade-te, mostra-te, grita com força a tua presença.
Para que um dia, após a morte desse corpo que te envolve
não paires tu como alma penada.

Porto, 20 de Maio de 2005

Solidão amiga

Respiro lentamente como em busca de calma.
Sufoco com o silêncio que imana à minha volta.
Luto ofegante contra ti, solidão imune.
Tento evitar-te, agarrar-te, controlar-te, expulsar-te...
E tu? Insistes, resistes a cada desdenho meu.
Não desisto, resisto também.
Vamos lutar mano-a-mano cada noite,
cada amanhecer que me resta.
Porquê? De certa forma fazes parte de mim
e esta luta fortalece-me.
Fortalece-nos.
Em tempos desejei-te,
supliquei para que me desses a mão.
Deste.
Agora és tu que exerces em mim tua força.
Partilho contigo tudo:
segredos, lágrimas, risos, cada palavra que escrevo.
Escutas lamentos, raivas, desabafos.
Saboreias o paladar dos cozinhados.
Assistes incrédula às danças
enquanto arrumo a casa ao som de uma música qualquer.
Opinas em silêncio sobre tudo.
E eu... escuto-te, mas acima de tudo respeito-te.
Não sei se te ame ou odeie,
mas enquanto esta luta durar somos um só,
unidos e confidentes.

Escrito em 03 de Outubro de 2005

Suspiros

Sinto-te lentamente em mim,

amordaçada e acorrentada ao meu ser.

Olhas-me com ternura e suplicas que te ame.

Suspiras.

Viras a face e ficas de perfil.

Relanças novamente o olhar,

desta vez como lanças,

e trespassas o meu intimo.

Suspiro.

Sinto-me frio, gelado.

Pairo sobre o ar, como levitando ao sabor da brisa.

Colocas tua mão amena sobre meu peito.

Lentamente como o Pôr-do-sol, desço em mim

saboreado pelo calor que brota da tua pele nua.

Desta vez sou eu que me sinto preso a ti.

Amordaçado e acorrentado ao teu ser.

Suspiras.

Suspiro.

Suspiramos ambos como num embalo de amor.


Escrito em 19/01/2006